O rabo está abanando o cachorro

01/03/2014 § Deixe um comentário

Rabo abana cão

José foi assaltado. Levaram o carro dele.
Ao chegar em casa de táxi, ele imediatamente assumiu a culpa pelo roubo:
“Eu dei bobeira, não deveria ter parado naquele semáforo”.

Maria foi estuprada, e quase morreu.
Ao prestar depoimento, ela deixou bem clara sua responsabilidade pelo episódio:
“Eu vacilei, não deveria ter ido comprar pão sozinha”.

Um ladrão arrancou o telefone celular das mãos de João enquanto ele atendia uma ligação.
Ele – o João, e não o ladrão – assumiu total culpa pelo crime:
“Eu não sei onde estava com a cabeça quando fui atender uma ligação no meio da rua”.

Maria foi morta durante um assalto.
Ela gritou e acabou levando um tiro.
Por ocasião de seu enterro, Maria foi condenada por todos os presentes:
“Que estupidez dela ter gritado, todo mundo sabe que durante um assalto o melhor é ficar em silêncio”.

Mário, um dedicado Policial Militar, foi morto a tiros por traficantes do morro no qual morava.
Seus familiares, entrevistados por um jornalista, o recriminaram duramente:
“Ele sempre foi cabeça-dura, nunca quis esconder a farda quando voltava para casa”.

No mesmo morro Paulo, um líder comunitário, foi esfaqueado até a morte pelos mesmos traficantes.
Seus amigos o criticaram ferozmente:
“Que falta de juízo, procurar a Polícia para denunciar que o crime estava dominando o morro”.

Marcos teve sua loja assaltada, e quase levou um tiro.
Seus empregados reclamaram dele:
“Que estupidez, deixar aquele monte de mercadoria exposta na vitrina”.

Marcos passou a deixar tudo trancado em um cofre.
Mas a loja foi assaltada de novo, e um de seus funcionários, após quase levar um tiro por ter
demorado a abrir o cofre, agrediu-o violentamente:
“seu miserável, fica trancando tudo, mais preocupado com as mercadorias do que com a gente,
e quase levamos um tiro por sua causa”.

Carlos estava jantando com sua namorada em um movimentado restaurante
quando uma quadrilha armada saqueou todos os clientes.
Seu futuro sogro não gostou:
“Este rapaz é um irresponsável, ele sabe muito bem que não estamos em época de ficar bestando por aí, jantando fora, e acabou passando por um assalto e traumatizando minha filha”.

Joel entrou em um subúrbio com o caminhão da empresa para entregar pacotes de biscoito nos bares de lá.
Após ter tido os produtos e o caminhão roubados, e quase ter sido morto, foi despedido por seu chefe:
“Que sujeito burro, ir com o caminhão lá naquele bairro sem pedir licença para o líder do tráfico local”.

Patrícia viajou a negócios.
Desembarcou no aeroporto com seu “notebook” e tomou um táxi.
Não conseguiu andar dois quarteirões – foi assaltada em um semáforo.
Na empresa, foi imediatamente repreendida:
“Você não poderia ter desembarcado sem antes esconder o “notebook”, deste jeito você pediu para ser assaltada”.

E é assim, de exemplo em exemplo, todos já parte do nosso cotidiano,
que vamos chegando a uma verdadeira “rotina do absurdo”.

Aqui no Brasil
é tão normal um cidadão ter medo de andar pelas ruas,
é tão comum um policial ter que esconder sua profissão para não morrer,
é tão usual pessoas terem que pedir permissão a traficantes para subir em morros e
é tão rotineiro abrir-se mão da cidadania mais básica
que já não causa surpresa as vítimas estarem se transformando em culpadas pelos crimes.

Diante desta tenebrosa realidade, patrocinada pela fraqueza e falta de firmeza das nossas instituições,
talvez já não nos cause surpresa ver um rabo abanando um cachorro.

(Autor Desconhecido)

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