O Rato Roeu o Queijo do Rei

25/03/2014 § 1 comentário

Ratinho

Deitado, eu lia uma estória para a minha neta Mariana, quando, repentinamente, tive a experiência mística da iluminação: vi, com clareza acima de qualquer dúvida, aquilo que os mais argutos filósofos não conseguiram ver. Vi, como num quadro, a solução para o enigma da democracia.

A democracia, eu sempre amei. Mas agora o meu amor transformou-se em saber filosófico. Sei as razões da democracia. E porque desejo que você, leitor, tenha saber idêntico ao meu, passo a contar-lhe a mesma estória que eu contava à minha neta no momento da iluminação.

Havia, outrora, num país distante, um rei que amava os queijos acima de quaisquer outros prazeres. O seu amor pelos queijos era tão grande que ele, movido por curiosidade científica e interesses gastronômicos, mandou vir, de todas as partes do mundo, os mais renomados especialistas em queijo, aos quais foram oferecidos recursos não só para continuar a fabricação dos queijos já conhecidos, como também para se dedicar à pesquisa de novos queijos, para assim alargar as fronteiras da ciência, da técnica e da gula. Ficaram famosos os queijos fabricados com leite de baleia e leite de unicórnio, estes últimos procuradíssimos pelas suas virtudes afrodisíacas.

O palácio do rei era um enorme depósito de queijos de todas as qualidades, encontrando-se nele os queijos camembert, cheddar, edam, emmentaler, gorgonzola, gouda, limburger, parmesão, pecorino, provolone, sapsago, trapista, prato, minas, mussarela, ricota, entre outros.

O país tornou-se famoso e enriqueceu-se com a exportação de queijos. O seu cheiro atravessava os mares. Universidades foram criadas com o objetivo de desenvolver a ciência dos queijos. Houve mesmo uma escola teológica que, pelos rigores da exegese dos Textos Sagrados, concluiu que o santo sacramento da eucaristia não foi primeiro celebrado com pão e vinho, mas com queijo e vinho, donde se originou o costume que perdura até hoje nas celebrações profanas.

Aconteceu, entretanto, que além do rei e do povo, havia outros seres no reino que também gostavam de queijo: os ratos. Atraídos pelo cheiro que saía do palácio, mudaram-se para lá aos milhares e passaram, imediatamente, abanquetear-se com os queijos reais. Os ratos tomaram todos os lugares. Encontravam-se nos armários, nas gavetas, nas canastras, nas camas, nos sofás, na cozinha, nos chapéus, nos sapatos, nos bolsos e até mesmo na barba do rei. Mas o pior de tudo era que os ratos, premidos por imperativos digestivos, tinham de expelir por uma extremidade o que haviam engolido pela outra, e à medida que andavam, iam deixando pelos corredores, salas e quartos do palácio um imenso rastro de minúsculos cocozinhos, redondos, durinhos e malcheirosos.

Furioso, o rei chamou os seus ministros e perguntou-lhes: – Que fazer para nos livrarmos dos ratos? Eles responderam: – É fácil, Majestade. Basta trazer os gatos. O rei ficou felicíssimo com idéia tão brilhante e mandou trazer uma centena de gatos para dar cabo dos ratos. Os ratos, ao ver os gatos, fugiram espavoridos. Foram-se os ratos. Ficaramos gatos, que encheram o palácio.

À semelhança dos ratos, os gatos comiam tudo o que viam e, compelidos pelas mesmas exigências fisiológicas que moviam os roedores, cobriram os brilhantes pisos do palácio com seus cocos fedorentos. Furioso, o rei chamou os seus ministros e perguntou-lhes: – Que fazer para nos livrarmos dos gatos? E eles responderam: – É fácil, Majestade. Basta trazer os cachorros. Vieram cachorros de todos os tipos, grandes e pequenos, curtos ecompridos, lisos e pintados. Os gatos, ao ver os cachorros, fugiram espavoridos. Foram-se os gatos,ficaram os cachorros, que encheram o palácio.

E a mesma estória se repetiu. Ao final, havia cocos de cachorro por todos os lugares do palácio. Furioso, o rei chamou os seus ministros e perguntou-lhes: – Que fazer paranos livrarmos dos cachorros? E eles responderam: – É fácil, Majestade. Basta trazer os leões. Vieram os leões com suas jubas e seus urros. Os cachorros, ao vê-los chegar, fugiram em desabalada carreira. Foram-se os cachorros, ficaram os leões. Mas os leões não só comiam cem vezes mais, como defecavam cem vezes mais que os minúsculos camundongos.

O tesouro real entrou em crise. Baixaram as reservas do ouro. Começou a faltar dinheiro para comprar carne e para pagar os catadores de cocos, que ameaçaram entrar em greve. Furioso, o rei chamou os seus ministro e perguntou-lhes: – Que fazer para nos livrarmos dos leões? E eles responderam: – É fácil, Majestade. Basta trazer os elefantes. Foram-se os leões. Ficaram os elefantes. Enormes eles comiam montanhas e defecavam montanhas. O palácio transformou-se num enorme monte de bosta de elefante. E a fedentina do reino atravessou os mares.

Furioso, o rei chamou os seus ministros e perguntou-lhes: – Que fazer para nos livrarmos dos elefantes? Os ministros lembraram-se, então, de que os elefantes, que nada temem, estremecem de medo ao ver um ratinho. E responderam em coro: – É fácil, Majestade. Basta trazer os ratos! E assim foi feito. Voltaram os ratos. Foram-se os elefantes e viveram felizes para sempre.

O dia chegará quando minha neta terá crescido. Não mais lhe contarei estórias. Ela aprenderá sobre a política. Quererá visitar os prédios do Congresso Nacional, símbolos da democracia. Notará, espantada, que há cocozinhos de ratos em todos os lugares. Me dirá, espantada: “Vovô, deve haver muitos ratos por aqui!” Eu responderei: “Sim, muitos ratos.” E ela me perguntará: “Mas por que não se trazem os gatos para acabar com os ratos? Então eu lhe contarei de novo esta estória e lhe direi: “Aprenda a grande lição da democracia: é preferível coco de rato à bosta de elefante”.

* Rubem Alves

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