Necessidade de Julgar

25/07/2014 § 2 Comentários

Cavalo Branco

Havia numa aldeia um velho muito pobre, mas até reis o invejavam, pois ele tinha um lindo cavalo branco. Reis ofereciam quantias fabulosas pelo cavalo, mas o homem dizia: “Este cavalo não é um cavalo para mim, é como se fosse uma pessoa. E como se pode vender uma pessoa, um amigo?” O homem era pobre, mas jamais vendeu o cavalo.

Numa manhã descobriu que o cavalo não estava na cocheira. A aldeia inteira se reuniu e disseram: “Seu velho estúpido! Sabíamos que um dia o cavalo seria roubado! Teria sido melhor vendê-lo, que fatalidade!” O velho disse: “Não cheguem a tanto. Simplesmente digam que o cavalo não está na cocheira. Este é o fato, o resto é julgamento. Quem pode saber o que vai se seguir?”

As pessoas riram do velho, sempre souberam que ele era um pouco louco. Mas quinze dias se passaram e, de repente, numa noite, o cavalo voltou. Ele não havia sido roubado, ele havia fugido para a floresta e não apenas isso, ele trouxera uma dúzia de cavalos selvagens consigo. Novamente, as pessoas se reuniram e disseram: “Velho, você estava certo, não se trata de uma desgraça, na verdade provou ser uma bênção.”

O velho disse: “Vocês estão se adiantando mais uma vez. Apenas digam que o cavalo está de volta. Quem sabe se é uma bênção ou não? Este é apenas um fragmento. Se você lê uma única palavra de uma sentença, como pode julgar todo o livro?”

Desta vez as pessoas não podiam dizer muito, mas interiormente sabiam que ele estava errado, afinal, agora eram doze lindos cavalos.

O único filho do velho começou a treinar os cavalos selvagens. Apenas uma semana mais tarde ele caiu de um cavalo e fraturou as pernas. As pessoas mais uma vez julgaram e disseram: “Você tinha razão novamente. Foi uma desgraça. Seu único filho perdeu o uso das pernas e na velhice ele era seu único amparo. Agora você está mais pobre do que nunca.”

O velho disse: “Vocês estão obcecados por julgamento. Não se adiantem tanto. Digam apenas que meu filho fraturou as pernas. Ninguém sabe se isso é uma desgraça ou uma bênção. A vida vem em fragmentos, mais que isso nunca é dado.”

Aconteceu que, depois de algumas semanas, o país entrou em guerra e todos os jovens da aldeia foram forçados a se alistarem. Somente o filho do velho foi deixado pra trás, pois se recuperava das fraturas. A cidade inteira estava chorando, lamentado-se porque aquela era uma luta perdida e sabiam que a maior parte dos jovens jamais voltaria. Elas vieram até o velho e disseram: “Você tinha razão velho, o que aconteceu com seu filho foi uma bênção. Seu filho pode estar aleijado, mas ainda está com você. Nossos filhos forma-se para sempre.”

O velho respondeu: “Vocês continuam julgando. Ninguém sabe! Digam apenas que seus filhos foram forçados a entrar para o exército e que meu filho não foi. Mas somente Deus sabe se isso é uma bênção ou uma desgraça. Não devemos julgar, pois o julgamento nos deixa obcecados com fragmentos e deixamos de crescer porque o nosso mental fica estagnado. Julgar é um processo sempre arriscado e desconfortável.”

A jornada nunca chega ao fim. Um caminho termina e outra começa. Uma porta se fecha e outra se abre. Atingimos um pico e sempre existirá um pico mais alto. Precisamos aprender a não julgar, pois quando não sentimos esta necessidade, estamos satisfeitos simplesmente em viver o momento presente e de nele crescer. Somente assim caminhamos em harmonia com as Leis Divinas.

(Conto Chinês)

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